“A saúde é uma escolha política”
A afirmação de Tedros Adhanom Ghebreyesus situa o debate sanitário no campo das decisões que definem prioridades, distribuem recursos e estabelecem as condições de acesso ao cuidado. Reconhecer essa dimensão implica compreender que a capacidade de uma sociedade de responder às necessidades de saúde de sua população depende de compromissos públicos sustentados, de instituições responsáveis e de políticas orientadas à redução das desigualdades. Na perspectiva defendida por Tedros, o enfrentamento dos problemas de saúde exige sistemas integrados, capazes de atender às necessidades de indivíduos, famílias e comunidades ao longo da vida.
É nesse horizonte que se inscreve a obra Produção do Cuidado, Redes de Atenção e Integralidade. Seus capítulos aproximam investigações epidemiológicas, revisões da literatura, análises críticas e relatos de experiência que, a partir de diferentes objetos e cenários, permitem examinar as relações entre necessidades de saúde, práticas profissionais e organização dos serviços. O conjunto oferece ao leitor possibilidades de reflexão sobre o cuidado em suas dimensões clínica, educativa, social e político-institucional, com particular atenção aos desafios do Sistema Único de Saúde.
A produção do cuidado envolve decisões tomadas nos encontros entre trabalhadores e usuários, nas relações com as famílias e nas instâncias de gestão. Nesses espaços, conhecimentos científicos, experiências de adoecimento, condições de trabalho e recursos disponíveis participam da definição das respostas oferecidas. A integralidade constitui, portanto, uma exigência para a organização dessas respostas: pressupõe reconhecer a singularidade de cada pessoa, compreender suas condições de vida e assegurar continuidade entre ações e serviços. Sua realização depende tanto da qualidade das relações assistenciais quanto da capacidade das redes de assumir responsabilidades compartilhadas.
A Atenção Primária à Saúde ocupa posição central nessa discussão. Os capítulos dedicados ao acolhimento, às tecnologias leves, à educação permanente e ao protagonismo das agentes comunitárias de saúde aproximam o debate das práticas desenvolvidas nos territórios. As experiências de saúde do trabalhador, incluindo a reativação de um grupo mediada pelo PET-Saúde Equidade, ampliam essa perspectiva ao incorporar o trabalho como dimensão da vida que demanda reconhecimento e intervenção. A prevenção de quedas no domicílio e o cuidado dermatológico em diferentes faixas etárias, por sua vez, convidam a pensar a capacidade da Atenção Primária de identificar necessidades, acompanhar trajetórias e articular respostas com os demais pontos da rede.
A relação entre vigilância e assistência atravessa os textos sobre arboviroses, febre amarela e chikungunya. A integração com a saúde digital, o monitoramento epidemiológico e os desafios da continuidade do cuidado compõem uma agenda que aproxima a leitura das condições territoriais da organização dos serviços. Esses temas permitem discutir como informações sobre a ocorrência de agravos podem orientar decisões e como as redes se organizam para responder a demandas que se modificam no tempo, inclusive quando ultrapassam os episódios agudos de adoecimento.
As diferenças territoriais também orientam os estudos sobre o carcinoma epidermoide invasor do colo do útero na Amazônia brasileira, os indicadores hospitalares relacionados à sepse e ao acidente vascular cerebral no Ceará e o impacto assistencial e econômico das queimaduras no Brasil. Em diálogo com a discussão das desigualdades regionais no acesso à assistência cirúrgica e anestésica, esses capítulos oferecem recortes para examinar a distribuição das necessidades e dos recursos assistenciais. A consideração do território favorece uma leitura dos indicadores vinculada às condições concretas em que as pessoas vivem, adoecem e procuram atendimento.
No campo clínico e terapêutico, a obra reúne questões relativas à adesão à medicação e à acupuntura no cuidado às pessoas com fibromialgia, aos análogos do GLP-1 no diabetes mellitus tipo 2 e à trajetória de novas tecnologias para o tratamento das hemofilias. A análise das diretrizes nacionais do cuidado farmacêutico acrescenta a esse conjunto a dimensão da organização das práticas no SUS. São temas que suscitam reflexões sobre avaliação de evidências, segurança, acesso e acompanhamento terapêutico, sem perder de vista a participação dos usuários nas decisões que afetam sua saúde.
O cuidado dermatológico comparece em abordagens voltadas à infância, à adolescência e ao envelhecimento, contemplando dermatoses infecciosas, dermatite atópica e detecção precoce do câncer de pele. A presença desses temas permite relacionar reconhecimento de necessidades, repercussões do adoecimento e articulação entre Atenção Primária e atenção especializada. Em outro âmbito de investigação, os estudos sobre aldeídos em amostras de azeite de dendê utilizado em frituras e sobre a associação entre procalcitonina sérica e periodontite ampliam os objetos contemplados pela coletânea, incorporando questões de segurança dos alimentos e de investigação laboratorial vinculada à saúde.
As tecnologias digitais são abordadas em diferentes situações: no monitoramento de arboviroses, no cuidado dermatológico pediátrico, nos sistemas de informação utilizados na fiscalização do SUS e no uso de chatbots para a escolha de recursos ergogênicos nutricionais. Sua presença na obra suscita questões sobre a qualidade das informações, os critérios de utilização e as responsabilidades envolvidas em seu emprego. O debate sobre as possíveis associações entre cyberbullying e funções executivas em adolescentes acrescenta outra perspectiva, ao considerar o ambiente digital como espaço de relações e experiências com implicações para a saúde.
A educação e a formação profissional constituem outro eixo de aproximação entre os capítulos. A metodologia da problematização na educação especial, com foco no empoderamento familiar, e a análise do acolhimento na Atenção Primária pelo Arco de Maguerez colocam em discussão processos educativos vinculados a situações concretas. Os relatos de estudantes de enfermagem na clínica cirúrgica e no pronto atendimento oncológico permitem refletir sobre aprendizagem, supervisão e responsabilidade assistencial, incluindo o reconhecimento da deterioração clínica. A abordagem das comunidades terapêuticas como espaços de educação não formal acrescenta ao debate a análise das convicções e intencionalidades presentes nas práticas educativas institucionais.
As relações entre cuidado, autonomia e participação social ganham expressão no estudo sobre economia solidária e inclusão pelo trabalho em um CAPS AD III. Ao lado da análise crítica da Política Nacional de Cuidados, esse tema amplia a discussão sobre as condições sociais de sustentação da vida, a distribuição das responsabilidades de cuidar e o reconhecimento das pessoas como sujeitos de direitos. A integralidade exige considerar essas relações, sobretudo quando necessidades prolongadas de cuidado se articulam a desigualdades e a processos de exclusão.
Liderança, governança, fiscalização e gestão de recursos públicos completam esse debate ao explicitar as responsabilidades institucionais na organização da atenção. A discussão sobre a invisibilidade do enfermeiro na gestão de recursos públicos convida a examinar o reconhecimento dos saberes e das atribuições profissionais nos espaços decisórios. Esses capítulos recolocam, no plano da gestão, a questão que abre a obra: as escolhas políticas adquirem materialidade nos critérios de financiamento, na organização do trabalho e nas condições oferecidas para que o cuidado aconteça.
Dirigida a pesquisadores, estudantes, trabalhadores e gestores, Produção do Cuidado, Redes de Atenção e Integralidade propõe uma leitura das conexões entre problemas que frequentemente são examinados de forma separada. A diversidade de seus capítulos oferece oportunidades para interrogar práticas, reconhecer necessidades e discutir respostas compatíveis com os diferentes contextos de atenção. Ao reunir essas contribuições, a obra participa do debate sobre a responsabilidade coletiva de produzir um cuidado acessível, contínuo e comprometido com a dignidade das pessoas.
Boa leitura!
Francisco Lucas de Lima Fontes
Vanessa Maria Oliveira Viana
Keila Fernandes Pontes Queiroz
Caroline Viana Coêlho da Franca
Yasmin Saleh Malachias
Mércia Cycilia de França Lopes
Wilton Pereira dos Santos
Cícero Matias Leite
Thiago Silva Braga
Márcia Sandra Rego de Sousa
ORGANIZADORES
DOI: 10.53524/lit.edt.978-65-84528-72-7
ISBN: 978-65-84528-72-7
PALAVRAS CHAVE: Produção do Cuidado, Redes de Atenção, Integralidade.
ANO: 2026
Caroline Viana Coêlho da Franca
Cícero Matias Leite
Francisco Lucas de Lima Fontes
Keila Fernandes Pontes Queiroz
Mércia Cycilia de França Lopes
Thiago Silva Braga
Vanessa Maria Oliveira Viana
Wilton Pereira dos Santos
Yasmin Saleh Malachias
Desenvolvido por Alexsander Arcelino